TIPOS DE JOGOS
O JOGO NAS SESSÕES DE PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL
No trabalho desenvolvido no CIEPRE privilegiamos as construções que as crianças, adolescentes e adultos com necessidades especiais desenvolvem através dos jogos espontâneos. Na terapia psicomotriz o jogo tem o significado de brincar lúdico, pois através destas experiências, vivenciam, desenvolvem os aspectos motores, cognitivos e emocionais. A intervenção terapêutica e educacional da criança, adolescente e adulto com necessidades especiais, a partir de uma abordagem corporal, procura potencializar estes jogos, visando o desenvolvimento das possibilidades que estas pessoas apresentam na sua trajetória lúdica. A estratégia que adotamos, nessa equipe, para atender as pessoas portadoras de necessidades educativas especiais, foi a de oferecer uma Terapia Psicomotriz de enfoque relacional, ou seja, a intervenção psicopedagógica era pela via corporal, que privilegia o jogo espontâneo. Buscamos nos autores abaixo citados, sustentação para o entendimento das leituras que vão ocorrendo durante as sessões de psicomotricidade.
CONCEPÇÕES DE JOGO CONFORME VYGOTSKI, PIAGET, WALLON.
Desde que a criança nasce está presente à atividade lúdica, por isso a importância de desenvolvermos os estudos sobre os tipos de jogos nas diferentes concepções, dados a importância dos mesmos no desenvolvimento infantil.
O JOGO NA CONCEPÇÃO DE PIAGET
Para Piaget (1978) as origens das manifestações lúdicas acompanham o desenvolvimento da inteligência vinculando-se aos estágios do desenvolvimento cognitivo. Cada etapa do desenvolvimento está relacionada a um tipo de atividade lúdica que se sucede da mesma maneira para todos os indivíduos. Piaget identifica três grandes tipos de estruturas mentais que surgem sucessivamente na evolução do brincar infantil: o exercício, o símbolo e a regra. a) jogos de exercício, b) jogos simbólicos e c) jogos de regras.
a) O jogo de exercício Representa a forma inicial do jogo na criança e caracteriza o período sensório-motor do desenvolvimento cognitivo. Manifesta-se na faixa etária de zero a dois anos e acompanha o ser humano durante toda a sua existência — da infância à idade adulta. A característica principal do jogo de exercício é a repetição de movimentos e ações que exercitam as funções tais como andar, correr, saltar e outras pelo simples prazer funcional.
b) O jogo simbólico Tem início com o aparecimento da função simbólica, no final do segundo ano de vida, quando a criança entra na etapa pré-operatória do desenvolvimento cognitivo. Um dos marcos da função simbólica é a habilidade de estabelecer a diferença entre alguma coisa usada como símbolo e o que ela representa seu significado.
c) O jogo de regras Constituem-se os jogos do ser socializado e se manifestam quando, por volta dos 4 anos, acontece um declínio nos jogos simbólicos e a criança começa a se interessar pelas regras. Desenvolvem-se por volta dos 7/11 anos, caracterizando o estágio operatório-concreto.
O JOGO NA CONCEPÇÃO DE WALLON
Para Wallon, o fator mais importante para a formação da personalidade não é o meio físico, mas sim o social. O autor chama a atenção para o aspecto emocional, afetivo e sensível do ser humano e elege a afetividade, intimamente fundida com a motricidade, como desencadeadora da ação e do desenvolvimento da ação e do desenvolvimento psicológico da criança. Para o autor, a personalidade humana é um processo de construção progressiva, onde se realiza a integração de duas funções principais:
Wallon enfoca a motricidade no desenvolvimento da criança, ressaltando o papel que as aquisições motoras desempenham progressivamente para o desenvolvimento individual. Segundo ele, é pelo corpo e pela sua projeção motora que a criança estabelece a primeira comunicação (diálogo tônico) com o meio, apoio fundamental do desenvolvimento da linguagem. É a incessante ligação da motricidade com as emoções, que prepara a gênese das representações que, simultaneamente, precede a construção da ação, na medida em que significa um investimento, em relação ao mundo exterior. Na concepção de Wallon, infantil é sinônimo de lúdico. Toda atividade da criança é lúdica, no sentido que se exerce por si mesma antes de poder integrar-se em um projeto de ação mais extensivo que a subordine e transforme em meio. Deste modo, ao postular a natureza livre do jogo, Wallon o define como uma atividade voluntária da criança. Se imposta, deixa de ser jogo; é trabalho ou ensino.
Wallon, ao classificar os jogos infantis, apresenta quatro categorias:
a) Jogos funcionais Caracterizam-se por movimentos simples de exploração do corpo, através dos sentidos. A criança descobre o prazer de executar as funções que a evolução da motricidade lhe possibilita e sente necessidade de pôr em ação as novas aquisições, tais como: os sons, quando ela grita, a exploração dos objetos, o movimento do seu corpo. Esta atividade lúdica identifica-se com a “lei do efeito”. Quando a criança percebe os efeitos agradáveis e interessantes obtidos nas suas ações gestuais, sua tendência é procurar o prazer repetindo suas ações.
b) Jogos de ficção Atividades lúdicas caracterizadas pela ênfase no faz-de-conta, na presença da situação imaginária. Ela surge com o aparecimento da representação e a criança assume papéis presentes no seu contexto social, brincando de “imitar adultos”, “casinha”, “escolinha”, etc.
c) Jogos de aquisição Desde que o bebê, “todo olhos, todo ouvidos”, como descreve Wallon, se empenha para compreender, conhecer, imitar canções, gestos, sons, imagens e histórias, começam os jogos de aquisição.
d) Jogos de fabricação São jogos onde a criança se entretém com atividades manuais de criar, combinar, juntar e transformar objetos. Os jogos de fabricação são quase sempre as causas ou conseqüências do jogo de ficção, ou se confundem num só. Quando a criança cria e improvisa o seu brinquedo: a boneca, os animais que podem ser modelados, isto é, transforma matéria real em objetos dotados de vida fictícia.
O JOGO NA CONCEPÇÃO DE VYGOTSKI
A partir de suas investigações sobre o desenvolvimento dos processos superiores do ser humano, Vygotski apresenta estudos sobre o papel psicológico do jogo para o desenvolvimento da criança. O autor enfatiza a importância de se investigar as necessidades, motivações e tendências que as crianças manifestam e como se satisfazem nos jogos, a fim de compreendermos os avanços nos diferentes estágios de seu desenvolvimento. Caracterizando o brincar da criança como imaginação em ação, Vygotski elege a situação imaginária como um dos elementos fundamentais das brincadeiras e jogos. Segundo Vygotski, o brinquedo que comporta uma situação imaginária também comporta uma regra relacionada com o que está sendo representado. Assim, quando a criança brinca de médico, busca agir de modo muito próximo daquele que ela observou nos médicos do contexto real. A criança cria e se submete às regras do jogo ao representar diferentes papéis. Para Vygotski, a brincadeira se configura como uma situação privilegiada de aprendizagem infantil, à medida que fornece uma estrutura básica para mudanças das necessidades e da consciência. Outro aspecto evidenciado pelo estudioso é o papel essencial da imitação na brincadeira, na medida em que, inicialmente, a criança faz aquilo que ela viu o outro fazer, mesmo sem ter clareza do significado da ação. À proporção que deixa de repetir por imitação, passa a realizar a atividade conscientemente, criando novas possibilidades e combinações. Dessa forma, a imitação não é considerada uma atividade mecânica ou de simples cópia de modelo, uma vez que ao realizá-la, a criança está construindo, em nível individual, o que nos observaram outros. É, portanto, na situação de brincar que as crianças se colocam questões e desafios além de seu comportamento diário, levantando hipóteses, na tentativa de compreender os problemas que lhes são propostos pela realidade na qual interagem. Assim, ao brincarem, constroem a consciência da realidade e, ao mesmo tempo, vivenciam a possibilidade de transformá-la. Fazendo referência à característica de prazer, presente nas brincadeiras, Vygotski afirma que nem sempre há satisfação nos jogos, e que quando estes têm resultado desfavorável, ocorre desprazer e frustração.
O JOGO NAS SESSÕES DE PSICOMOTRICIDADE RELACIONALTERAPIA EDUCAÇÃO NO CIEPRE
Durante as sessões de Psicomotricidade Relacional realizadas no CIEPRE as crianças, adolescentes e adultos com necessidades especiais desenvolvem diversos tipos de jogos espontâneos. Destacamos, fundamentados nos estudos e pesquisas, os seguintes tipos de jogos que surgem no decorrer do trabalho desenvolvido.
Jogo de Imitação
Jogo Simbólico
Jogo de Exercício
Jogo de construção
Jogos de Regras
“Através das brincadeiras a criança: aprende, exercita suas novas habilidades, percebe (fascinada) coisas novas, digere medos e angústias, repete sem parar o que gosta, explora e pesquisa o que há de novo ao seu redor”. (Maria Tereza Maldonado) |
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